quarta-feira, 1 de abril de 2026

Rua feliz

Eu morava em uma rua que se chamava
Rua feliz.
E que incoerente isso me soa 
Se tem algo que não fui nessa rua 
Foi feliz 
E não era pra ser? O que poderíamos supor?
O que poderíamos pensar 
Das pessoas que moraram em uma rua feliz?
Eu era mais feliz na rua que tinha nome de data
Data é algo muito mais sólido 
Feliz é abstrato 
Não garante nada 
Feliz como? O que é ser feliz? 
Uma data não causa dúvidas. 
A data é objetiva, direta:
21 de maio 
Fim
Eu poderia ser qualquer coisa na rua 21 de maio
Inclusive feliz,
Triste também,
Qualquer coisa, tudo caberia nessa data
E na rua feliz? 
Eu tinha que ser feliz, ora. 
Eu tinha que aceitar a finalidade da minha rua
Uma rua feliz não comporta pessoas tristes 
Não poderia ser 
E aí eu não sabia o que fazer
Com a minha solidão. 

Helena. 

sábado, 27 de setembro de 2025

Insistência

O que é viver se não insistir? 
Essa teimosia de tentar 
De errar
Mas continuar, de novo e de novo
Pra ver o que há, se há alguma coisa 
Há de haver 
Bom 
Eu sempre disse que era uma pessoa
Fácil de desistir 
E, parando pra refletir, 
Eu desisto de coisa pouca 
Desisto do que é raso
Supérfluo 
Do que não vale 
Agora das coisas grandes 
Essas coisas me mantém presa
Numa eterna tentativa 
Erro, acerto, frustração, lamento 
Tento 
De novo 
Porque acho difícil desapegar 
Essa minha mania de carregar 
Um fio de qualquer outra coisa que já foi 
Um fio do que sobrou 
Vou amarrando fio por fio 
Que levo junto a me amarrar 
E tudo isso vira nó
Não sei onde começa 
Não sei onde termina 
Tudo junto, num só 
Os sonhos da infância 
A acidez da adolescência 
O desamparo da adultez 
Eu, sozinha, com meus fios, e só 
Descobrindo por mim mesma 
Onde começo 
Onde termino 
Eu até saberia desfazer o nó
Mas no fundo eu tenho medo 
Do que resta 
A clareza cega 
Inventar é bem melhor.


Helena Vicente 

sábado, 29 de março de 2025

Não acredite em um poeta

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe
Milimetricamente 
Perfeitamente 
Encaixar palavras e desenhar o sentir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Sempre 
O que dizer 
Como se não tivesse nada 
A esconder 

Não acredite em um poeta 
Não confie em quem sabe 
Te convencer 
De que sentir é o melhor caminho
Para não se arrepender 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que no fim, nem sempre as palavras
Dão conta de expressar
Tudo que existe 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que, para um bom poema existir,
É preciso sangrar, por muito tempo,
É preciso quase ruir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que encaixar as palavras
Nem sempre dá contorno 
Pra melancolia do existir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que sabe 
O que dói 

Não confie em quem pensa
Que sabe 
Que a vida fica menos dolorida 
Através da escrita 
Frases perfeitas em um papel 

Não acredite que um poeta 
Pode te salvar 
Da tua própria dor 

Mas confie que um poema 
Pode te mostrar um caminho
Para poder sangrar
Em paz 

Helena Vicente 

quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Urgência de solidão

Eu tenho uma urgência de solidão 
Uma vontade imensa de silêncio 
De silêncio que consiga aplacar os meus vazios 
Que permita eu ouvir o que pulsa aqui dentro 

Eu tenho uma urgência de solidão 
E isso nem sempre é justo 
E nem sempre eu sou justa comigo 
Facilmente eu abro mão 

Eu tenho uma urgência de solidão 
Uma necessidade emergente de pausar 
Não ouvir, não escutar e nem falar 
Não performar, não pensar, nem escrever 

Eu tenho uma urgência de solidão 
De poder fazer por mim o que vivo fazendo pelo outro
Na solidão eu não preciso 
Abrir mão de mim de novo 

A solidão só assusta 
Quem tem medo de ficar sozinho 
Com os próprios pensamentos 
Mas dessa fase eu já passei 

A minha urgência de solidão 
É poder desfrutar de um tempo 
Em que eu não preciso provar
Nada pra ninguém

Helena Vicente

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Voltar para lugar nenhum

É que eu sempre me senti assim, 
nunca senti que tinha um lugar para onde voltar. 
Eu por mim, e só.

Fica difícil encontrar um brilho 
que não se sabe exatamente onde perdeu,
às vezes me dá vontade de gritar:
- ME DEVOLVA A MINHA POTÊNCIA CRIATIVA!
como se alguém tivesse me roubado,
e na verdade não acho que foi isso que aconteceu.

Acho que tá aqui comigo, ainda,
esperando um espaço para aparecer.
É certo que em poça de água não pega fogo,
então só fico aqui olhando para o meu próprio reflexo, 
não como no enamoramento de Narciso,
só buscando pra ver se encontro algum sentido,

e aí fica tudo embaçado de novo.




Helena Vicente

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Armazenamento cheio

às vezes sinto que preciso me apertar, 
sufocar,
sufocar,
sufocar, 
até caber.

por vezes me sinto tão pequenininha, 
tão pequenininha, 
e ainda assim
não caibo.

não cabe a minha angústia, 
não cabem minhas palavras, 
não cabe a parte de mim que pulsa, 
nem cabem minhas metáforas. 

o espaço é tão pequeno, 
e já tão cheio de tudo
que parece mais importante 
que eu fique do outro lado do muro.

parece que o único papel que me resta 
é de ouvir, 
escutar,
escutar,
escutar,
e compreender. 

sufocar, sufocar, sufocar, 
e entender
que não é tão fácil assim 
pra encontrar o nosso lugar.

onde que eu coloco então 
tudo que é meu?
onde que eu encontro 
um lugar que me comporta?

continuo esperando, 
do outro lado da porta.

helena vicente

sábado, 13 de abril de 2024

Sociedade limitada

uma sociedade
em uma empresa 
que faliu 

desfaz 

cada um com 
os seus negócios 

a vida é isso. 

- Helena Vicente 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Paradoxo

Até viver o tempo todo anestesiado, dói. 
Sentir dói, não sentir nada, também. 
Os extremos, aqueles que buscamos
por extinguir.
Os extremos comunicam sempre, 
mas não é sempre que estamos preparados
para ouvir o que eles querem dizer. 
Tem vezes que sabemos exatamente o que significa, 
mas e agora? Fazer o que com isso?
Mentimos pra nós mesmos o tempo inteiro, 
é claro que a gente quer se proteger, 
mas chega um momento em que nossas mentiras 
já não enganam mais,
o que idealizamos, deixa de ser, 
e dói, viu?
Perder um ideal é como perder alguém, 
perder e deixar de idealizar, 
perder e não conseguir mais idealizar, 
porque, de novo, as mentiras já não enganam mais, 
a gente sabe,
e saber dói, 
saber dói mais do que não saber. 
Como sempre: vivendo em paradoxos. 


Helena Vicente