sábado, 27 de setembro de 2025

Insistência

O que é viver se não insistir? 
Essa teimosia de tentar 
De errar
Mas continuar, de novo e de novo
Pra ver o que há, se há alguma coisa 
Há de haver 
Bom 
Eu sempre disse que era uma pessoa
Fácil de desistir 
E, parando pra refletir, 
Eu desisto de coisa pouca 
Desisto do que é raso
Supérfluo 
Do que não vale 
Agora das coisas grandes 
Essas coisas me mantém presa
Numa eterna tentativa 
Erro, acerto, frustração, lamento 
Tento 
De novo 
Porque acho difícil desapegar 
Essa minha mania de carregar 
Um fio de qualquer outra coisa que já foi 
Um fio do que sobrou 
Vou amarrando fio por fio 
Que levo junto a me amarrar 
E tudo isso vira nó
Não sei onde começa 
Não sei onde termina 
Tudo junto, num só 
Os sonhos da infância 
A acidez da adolescência 
O desamparo da adultez 
Eu, sozinha, com meus fios, e só 
Descobrindo por mim mesma 
Onde começo 
Onde termino 
Eu até saberia desfazer o nó
Mas no fundo eu tenho medo 
Do que resta 
A clareza cega 
Inventar é bem melhor.


Helena Vicente 

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