sábado, 27 de setembro de 2025

Insistência

O que é viver se não insistir? 
Essa teimosia de tentar 
De errar
Mas continuar, de novo e de novo
Pra ver o que há, se há alguma coisa 
Há de haver 
Bom 
Eu sempre disse que era uma pessoa
Fácil de desistir 
E, parando pra refletir, 
Eu desisto de coisa pouca 
Desisto do que é raso
Supérfluo 
Do que não vale 
Agora das coisas grandes 
Essas coisas me mantém presa
Numa eterna tentativa 
Erro, acerto, frustração, lamento 
Tento 
De novo 
Porque acho difícil desapegar 
Essa minha mania de carregar 
Um fio de qualquer outra coisa que já foi 
Um fio do que sobrou 
Vou amarrando fio por fio 
Que levo junto a me amarrar 
E tudo isso vira nó
Não sei onde começa 
Não sei onde termina 
Tudo junto, num só 
Os sonhos da infância 
A acidez da adolescência 
O desamparo da adultez 
Eu, sozinha, com meus fios, e só 
Descobrindo por mim mesma 
Onde começo 
Onde termino 
Eu até saberia desfazer o nó
Mas no fundo eu tenho medo 
Do que resta 
A clareza cega 
Inventar é bem melhor.


Helena Vicente 

sábado, 29 de março de 2025

Não acredite em um poeta

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe
Milimetricamente 
Perfeitamente 
Encaixar palavras e desenhar o sentir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Sempre 
O que dizer 
Como se não tivesse nada 
A esconder 

Não acredite em um poeta 
Não confie em quem sabe 
Te convencer 
De que sentir é o melhor caminho
Para não se arrepender 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que no fim, nem sempre as palavras
Dão conta de expressar
Tudo que existe 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que, para um bom poema existir,
É preciso sangrar, por muito tempo,
É preciso quase ruir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que encaixar as palavras
Nem sempre dá contorno 
Pra melancolia do existir 

Não acredite em um poeta
Não confie em quem sabe 
Que sabe 
O que dói 

Não confie em quem pensa
Que sabe 
Que a vida fica menos dolorida 
Através da escrita 
Frases perfeitas em um papel 

Não acredite que um poeta 
Pode te salvar 
Da tua própria dor 

Mas confie que um poema 
Pode te mostrar um caminho
Para poder sangrar
Em paz 

Helena Vicente