quinta-feira, 10 de outubro de 2024

Urgência de solidão

Eu tenho uma urgência de solidão 
Uma vontade imensa de silêncio 
De silêncio que consiga aplacar os meus vazios 
Que permita eu ouvir o que pulsa aqui dentro 

Eu tenho uma urgência de solidão 
E isso nem sempre é justo 
E nem sempre eu sou justa comigo 
Facilmente eu abro mão 

Eu tenho uma urgência de solidão 
Uma necessidade emergente de pausar 
Não ouvir, não escutar e nem falar 
Não performar, não pensar, nem escrever 

Eu tenho uma urgência de solidão 
De poder fazer por mim o que vivo fazendo pelo outro
Na solidão eu não preciso 
Abrir mão de mim de novo 

A solidão só assusta 
Quem tem medo de ficar sozinho 
Com os próprios pensamentos 
Mas dessa fase eu já passei 

A minha urgência de solidão 
É poder desfrutar de um tempo 
Em que eu não preciso provar
Nada pra ninguém

Helena Vicente

segunda-feira, 17 de junho de 2024

Voltar para lugar nenhum

É que eu sempre me senti assim, 
nunca senti que tinha um lugar para onde voltar. 
Eu por mim, e só.

Fica difícil encontrar um brilho 
que não se sabe exatamente onde perdeu,
às vezes me dá vontade de gritar:
- ME DEVOLVA A MINHA POTÊNCIA CRIATIVA!
como se alguém tivesse me roubado,
e na verdade não acho que foi isso que aconteceu.

Acho que tá aqui comigo, ainda,
esperando um espaço para aparecer.
É certo que em poça de água não pega fogo,
então só fico aqui olhando para o meu próprio reflexo, 
não como no enamoramento de Narciso,
só buscando pra ver se encontro algum sentido,

e aí fica tudo embaçado de novo.




Helena Vicente

quarta-feira, 15 de maio de 2024

Armazenamento cheio

às vezes sinto que preciso me apertar, 
sufocar,
sufocar,
sufocar, 
até caber.

por vezes me sinto tão pequenininha, 
tão pequenininha, 
e ainda assim
não caibo.

não cabe a minha angústia, 
não cabem minhas palavras, 
não cabe a parte de mim que pulsa, 
nem cabem minhas metáforas. 

o espaço é tão pequeno, 
e já tão cheio de tudo
que parece mais importante 
que eu fique do outro lado do muro.

parece que o único papel que me resta 
é de ouvir, 
escutar,
escutar,
escutar,
e compreender. 

sufocar, sufocar, sufocar, 
e entender
que não é tão fácil assim 
pra encontrar o nosso lugar.

onde que eu coloco então 
tudo que é meu?
onde que eu encontro 
um lugar que me comporta?

continuo esperando, 
do outro lado da porta.

helena vicente

sábado, 13 de abril de 2024

Sociedade limitada

uma sociedade
em uma empresa 
que faliu 

desfaz 

cada um com 
os seus negócios 

a vida é isso. 

- Helena Vicente 

terça-feira, 9 de janeiro de 2024

Paradoxo

Até viver o tempo todo anestesiado, dói. 
Sentir dói, não sentir nada, também. 
Os extremos, aqueles que buscamos
por extinguir.
Os extremos comunicam sempre, 
mas não é sempre que estamos preparados
para ouvir o que eles querem dizer. 
Tem vezes que sabemos exatamente o que significa, 
mas e agora? Fazer o que com isso?
Mentimos pra nós mesmos o tempo inteiro, 
é claro que a gente quer se proteger, 
mas chega um momento em que nossas mentiras 
já não enganam mais,
o que idealizamos, deixa de ser, 
e dói, viu?
Perder um ideal é como perder alguém, 
perder e deixar de idealizar, 
perder e não conseguir mais idealizar, 
porque, de novo, as mentiras já não enganam mais, 
a gente sabe,
e saber dói, 
saber dói mais do que não saber. 
Como sempre: vivendo em paradoxos. 


Helena Vicente